07/08/2009

Histórias que se escondem sob tapetes

Se me der um minuto da sua atenção, juro que trato de explicar tudo: O prédio, a luz cintilante e o ângulo da imagem. Mas não sem antes falar de mim.
Talvez hoje tenha sido um dia importante e, honestamente, acho que foi. Hoje, na verdade, foi dose!
Eu trabalho diariamente em três apartamentos diferentes, cada um com a sua sujeira. E a pior imundice que enfrento não é a sólida.
Hoje o da dona Alaíde estava um chiqueiro e ela mora sozinha, poxa! Lá o problema são os três vira-latas que valem por três meninos pequenos. Ela, solitária, entrega todo seu amor aos três e se esquece.
A sujeira na casa da Valéria é o Seu Odair. A Valéria, esposa dele, é um amor, coitada... O seu Odair é um folgado e não há coisa pior nesse mundo que homem encostado e desempregado.
A Marta, viúva, herdou boa fortuna. Ela adora se calcular no espelho, botar suas jóias pra deslizar pelo corredor e calçar salto alto pra assistir televisão. O apartamento dela é impecável- Móveis de madeira boa, louças finas e prataria sofisticada. Não tenho muito que limpar. Eu que tenho que fazer uma faxina na alma quando saio de lá. Ô, mulherzinha negativa! (E ainda rola um boato que foi ela quem envenenou o marido).
Essa é a sujeira de um dia. Você não imagina como fico no final da semana, com toda essa poeira acumulada- Completamente asfixiada.
Em casa sou só eu. Coisa que aprendi nesses anos de vida é que é melhor se contentar com você, sem esperar qualquer coisa do próximo. Não é fácil lutar por si, mas eu me viro bem.
Nunca tive família, nem terei.
Acho que por isso, Deus me botou nesse posto. Eu acho que a minha função é tomar conta das famílias que existem por aí.
Quando entro num apartamento me sinto de casa. Converso de igual, interfiro nas decisões, comando, dou ordens, ouço desabafos e faço os meus.
Pensando bem, falar que não tenho família é ignorar toda essa gente que precisa de mim, da minha comida e do meu espanador. Eu tenho, na verdade, uma família bem grande. E eu tenho sentimentos por muitos deles.
Quando um filho sai de casa, eu choro com a mãe. Quando a mais nova aparece de barriga, eu a ajudo com o pai. Se a conta de telefone vem alta, trato de escondê-la até a sexta, que é quando as cabeças estão mais frias.
E quando um morre, bem, eu fico de luto também.
Hoje a dona Margarida se jogou do 5º andar. Não consigo entender como teve coragem, mas conheço seus motivos. Ela era daquelas que esperava muito amor do próximo.
Tá aqui nos meus braços.
Nós duas, caídas no chão, olhamos para o prédio. Ela olha, mesmo que sem enxergar e eu observo o concreto todo, profundamente, através das lágrimas que embaçam minha vista.
O prédio, a luz cintilante e o ângulo da imagem.
Eu avalio clinicamente a construção. Meus olhos trabalham sozinhos como radares, muito analíticos e competentes, rastreando toda a área que me cabe.
Como é imenso, penso. E eu o conheço pelas entranhas.
Com a dona Margarida em meus braços, sinto que fracassei como faxineira. Talvez como amiga.
Talvez Deus tenha me confiado uma carga pesada demais – Confortar toda essa gente que sozinha, não se conforta.
Talvez devessem existir cursos que ensinassem domésticas a limpar a sujeira toda de um apartamento, inclusive as abstratas, sob o tapete.
Talvez também devêssemos aprender nessa escola mais de psicologia e talvez, assim, a Dona Margarida não tivesse se jogado.
É... Talvez eu não seja uma diarista competente.

Foto: Victor Tademos, Santos, Maio-09.

25/07/2009

Alegria Sintética

Eu acho que não lembro seus nomes... Sei que ficaram ali por trinta ou quarenta minutos. Ah! Eu lembro que a moça era enfermeira recém-formada e o rapaz ainda estudava pra ser médico pediatra.
Era ele quem gostava de crianças, ela nem tanto.
As meninas não eram deles, mas quem os via ali brincando entendia que eram uma família. Ela me contou que ele tinha um problema, desses que impedem casais de terem filhos, mas eu desconversei, logo que vi algumas lágrimas a ponto de transbordar dos seus olhos.
Eles estavam enfrentando o processo de adoção das pequenas, que são irmãs, e que foram abandonadas pela mãe. Ele também havia sido abandonado e sua memória de criança não tratou de armazenar imagens dos pais - Ambos haviam morrido de Aids logo depois dele nascer e os avós, com medo da doença, mandaram-no para um abrigo.
Quanta tristeza pode estar escondida atrás de uma cena alegre em um playground.
Eu sempre passo por ali... Fico andando pelo parque e admirando as famílias, os solteiros, os velhos, os drogados... Todos param bem perto da placa “playground”, por algum motivo que desconheço.
Talvez todos busquem as mesmas coisas. Talvez passem por lá pra recordar, pra reviver sentimentos, re-experimentar sensações, pra imaginar...
Será que ele também havia sido contaminado pela doença e esse era o problema que os impedia de ter filhos? Claro, eu não ia lhes perguntar isso.
Eu conversei apenas com ela. Ele estava muito entretido, brincando com as meninas sob a grama sintética. Não quis atrapalhá-lo, entendi que era seu momento de proporcionar alegria a elas, algo que talvez lhe fora negado na infância.
Admirei, por uma última vez, a cena alegre e voltei pra casa.

Foto: Victor Tademos, Santos, Maio-09.